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entre(laços)

por Vanda D´Almada Burguette

entre(laços)

por Vanda D´Almada Burguette

pelo abraço...abraça!

 

Um abraço é dado fora dos braços.

Estes são apenas o meio que o corpo usa para fazer vivo aquilo que enfeita a alma.

Mas não só.

Um sorriso pode ser um abraço. Um toque. Um gosto de ti. Preciso de ti. Uma voz. Música.

Tudo.

Tudo o que nos envolve e por momentos nos prende a algo ou alguém, para além de nós, abraça. E é abraçado.

 

Pode ter sabor de limonada fresca, chocolate quente em dia de chuva, água pura depois de uma caminhada,

vinho tinto à lareira de Inverno, champanhe escorrido em lençol de cetim.

Promessa. Jura. Desabafo. Pedido. Ajuda. Confirmação.

Pode ser forte ou frouxo. Intenso ou delicado.

Pode ser em pessoas, coisas, causas, efeitos.

Nós mesmos.

E quando nos abraçamos, damos o maior dos abraços.

O abraço à vida.

O abraço nasce onde quisermos e desagua onde pode ou até onde o levamos.

 

O abraço que não é dado aperta por dentro. Asfixia. Dói. 

Tal como tudo o que calamos por falta de abraços, medo de abraços, ou maus abraços.

 

(Sim, também os há maus. Há sombras de abraços, abraços postiços ou abraços desemparelhados)

 

Mas o abraço bom, o que sem aviso ou ideia nasce e faz brotar a vontade, deve-se soltar.

Tem vida, corpo, movimento e tem que ter a voz do gosto que o torna abraço e impede que seja aperto.

Tudo o que silenciamos nos pesa mais, muito mais, do que o peso da vulnerabilidade que experimentamos quando libertamos o que nos habita. 

Nada mata mais que sentimentos silenciados. Nada é mais egoísta que vozes abafadas.

Matam-nos por dentro, porque fechados não respiram nem deixam respirar.

Não fluem, não se abraçam à realidade.

Egoísmo, porque sendo nossos, pertencem-nos, mas pertencem também aquele ou aquilo que lhes deu existência.

 

Abraçar é soltar a palavra, o gesto e permitir que vá ter com o Outro.

Porque é nosso o que sentimos. Mas é por algo ou alguém que é sentido.

Não é uma história de um unico protagonista.

Ainda que seja vivida num unico andamento.

 

Mas o Mundo anda cheio de regras, indicações e teorias acerca do que deve ou não ser dito, confesso ou feito.  Abraçado.

 Todos e mais uns quantos têm recomendações, fórmulas e exemplos que deram certo.

 

Se confessas, perdes o interesse. Se dás muita importância, banalizam-te. Se vais sem rede, feres o coração ou espatifas a alma. Se contas, descontam-te. Se te fragilizas, pisam. Se te mostras, abusam. Se te revelas, já te sabem. Se já sabes que não, porque falar? 

E por fim, a melhor. A invocação da dignidade. Se não tem correspondência o que sentes, sê digno e cala-te.

 

E nós. E o medo. Ah... o medo.

O medo de ao falar abraçar o rídiculo, a rejeição, a dor. 

O medo de não se ser entendido, de perder o que se tem, do engano, da compaixão. 

Da mágoa. Do erro. Do abandono.

Do ego. Sim. Do ego ferido, esmigalhado, reduzido à insignificância.

Porque quando falamos de protecção, falamos muito e bastante de ego. 

A protecção aumenta na medida em que diminui a auto-estima e esta, aumenta na proporção quase exacta do conhecimento da nossa interioridade. 

Quanto melhor nos conhecemos, mais nos aceitamos e com isso menos necessidade temos de nos proteger do Mundo e dos Outros. Até porque inevitavelmente, possuindo um conhecimento profundo e alargado de nós, melhora também a lente reveladora que possuímos para ver e olhar o Outro.

 

Mas na correria dos dias que em lugar de nos alarem, nos aprisionam, por vezes somos tão só e apenas "gente" que se esquece de ser "pessoa", e se comporta como pavão. 

E depois. Depois as recomendações. As obrigações.

 

Talvez estejam certos. Se estão, eu, que sou parva decidi por mote próprio, fazer a partir de dada altura tudo errado. 

 

Porque quero.

Porque sinto.

Porque sou assim.

E não obrigo ninguém a seguir-me, mas quem fica ou chega, não vem ao engano.

 

Sou ética comigo mesma. Negoceio a coabitação comigo própria e aguento-me ao preço, para obter o valor.

O preço por vezes é altíssimo, mas o valor por ser fiel e leal a mim mesma, não tem preço.

E entre preço e valor, opto sempre pelo valor.

Escolhas. Minhas.

Servem para mim. Apenas.

 

Por isso abraço o que gosto, mesmo que me digam que não é para ser gostado.
Pode ser pessoa, roupa, penteado, postura ou ideologia. Livro, frase, autor, conceito.

Abraço o que sinto

Abraço o que me invade, mesmo que me digam que não é recomendável.

Abraço porque quero

Abraço também o não-abraço porque às vezes tenho medo.

Abraço o medo

 

Mas abraço sobretudo a capacidade de poder cada vez mais e melhor abraçar o que sou.

 

Somos o que sentimos, pensamos e fazemos. 

Somos a mistura de tudo isto e o modo como misturamos e doseamos isto tudo.

Esconder uma parte é falsear o que damos aos demais.

Dar uma imagem do que não somos, porque naquilo que damos subtraímos parte substantiva, adjectiva-nos.

 

Naturalmente que nem todo a gente é gente com sentido para ouvir o que nos prende a garganta, ou inunda o coração. Nem toda a gente te abraça ou entende a imensidão de um sentir.

Nem toda a gente entende a hora, o momento, a necessidade de te dar um abraço.

Cabe aqui confiar no nosso olhar, feito de visões passadas, caminhos trilhados, dores e alegrias vividas.

E sinceridade. Connosco.

Cabe aqui saber o que fazemos, porque fazemos e com quem fazemos.

O que sentimos, porque sentimos e por quem sentimos.

Não confundir casa com aldeia. Distinguir olhar de vista. Cheiro de odor. Escutar de ouvir. Perfume de água de cheiro.

Cabe aqui ainda, a crença e fé em nós mesmos e nas competências que nos permitem adestrar em nós esses dados.

E o erro. Perdoar-nos o erro. 

Porque em total e absoluto, nunca sabemos. Dominamos. Controlamos.

 

Não se trata sequer de arriscar.

Trata-se de não nos riscarmos.

Não riscar o que aprendemos, evoluímos, crescemos.

Não riscar o que por tudo isto, em nós toma sentido.

Não riscar e correr o unico risco possível: nós.

 

Nós somos o nosso maior risco.

Ser, implica correr esse risco.

Aceitamos ou amputamos.

A escolha é nossa.

 

 

A intensidade do abraço que damos a nós mesmos, mede a paixão com que abraçamos o Mundo e o Outro.

 

"A armadura é tanto mais forte, quão frágil é o ser que a habita"

 

Aprender a ser frágil, é ensaiar força.

Não abraces para ganhar um abraço.

... abraça para não te perderes do teu abraço ...

 

 

( E a questão...quando abandonar ou parar de dar um abraço? 

Pela razão que começa. Para merecermos o abraço em nós mesmos.

Devemos dá-lo, porque ao fazê-lo nos elevamos e nisso nos enlaçamos em nós. 

Devemos deixar de o dar quando com isso, nos sentimos desmerecedores do nosso próprio abraço.)